Tecnologia, Ciência e Sociedade: a telegrafia submarina no século XIX e a pesquisa em eletricidade

Mauo Costa

Resumo


Este trabalho analisa a influência da telegrafia submarina no desenvolvimento da teoria eletromagnética de campo durante o século XIX. Em meados deste século, a telegrafia elétrica, feita por fios presos ao topo dos postes, estava presente em quase todas as regiões da Europa, EUA, e em fase de implantação na América do Sul e Ásia. No norte da Europa, alguns países foram interligados por pequenos cabos submarinos, como o cabo que atravessou o Canal da Mancha, em 1851. O sucesso desses pequenos cabos fez crer que o funcionamento de cabos com maior extensão seria semelhante. Entretanto, os problemas começaram a aparecer. Nos cabos submarinos longos, sinais elétricos de curta duração enviados numa das extremidades chegavam à outra extremidade como sinais longos, e com sensível atraso em relação ao sinal emitido. Este fenômeno foi inicialmente observado por Werner von Siemens (1816-1892), em 1848, e por Latimer Clark (1822-1898) e Samuel Statham (1806-1871), em 1849. A descoberta do retardamento em cabos submarinos longos comprometia o ambicioso empreendimento de ligação telegráfica entre a América do Norte e a Europa. A constatação de que nos fios aéreos os sinais não apresentavam retardamento, mas quando isolados e enterrados ou colocados no mar apresentavam retardamento, era uma clara evidência de que o meio ambiente interferia na propagação elétrica. Este fato contribuiu com a teoria de campo, cujo conceito foi introduzido por Michael Faraday (1791-1867), que disputava a explicação da propagação elétrica com a teoria da ação à distância. A compreensão do fenômeno influenciou as teorias desenvolvidas por William Thomson (1824-1907) e James Clerk Maxwell (1831-1879).

Palavras-chave


cabo submarino; telegrafia; eletricidade.

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Referências


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[2] Flávio de Campos, Renan Garcia Miranda, A Escrita da História (São Paulo: Escala Educacional, 2005); Maria Efigência Lage de Resende, Ana Maria de Moraes, Historia Fundamental da Civilização (São Paulo: Editora Bernardo Álvares, 1976); José Jobson de A. Arruda, História Moderna e Contemporânea (São Paulo: Editora Ática, 1982); Charles Morazé, Os Burgueses à Conquista do Mundo (Lisboa: Editora Cosmos, 1965); entre outros.

[3] Colin A. Ronan, História Ilustrada da Ciência (Rio de Janeiro: Jorge Zahar editor, 1997); Carlos Augusto de Proença Rosa, História da Ciência O Pensamento Científico e a Ciência no século XIX (Brasília: fundação Alexandre de Gusmão, 2010); Paulo Abrantes, Imagens de Natureza Imagens de Ciência (São Paulo: Papirus, 1998); Attico Chassot, A Ciência através dos Tempos (São Paulo: Moderna, 1994).

[4] Sobre a evolução das ideias de campo eletromagnético ver: Paulo Abrantes, Imagens de Natureza Imagens de Ciência (São Paulo: Papirus, 1998); Paolo Rossi, O Nascimento da Ciência Moderna na Europa (São Paulo: Edusc, 2001); Carlos Augusto de Proença Rosa, História da Ciência O Pensamento Científico e a Ciência no século XIX (Brasília: fundação Alexandre de Gusmão, 2010); Michel Rival, Os Grandes Experimentos Científicos (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997); P. M. Harman, Energy, Force and Matter the Concetual Development of Nineteenth-Century Physics (New York: Cambridge University Press, 1982)

[5] É um aparelho capaz de detectar a passagem da corrente elétrica pelo seu interior através da deflexão de um ponteiro.

[6] Alessandro Volta (1745-1827) inventou sua pilha em 1799, empilhando alternadamente placas de zinco e cobre imersas em acido.

[7] Anton A. Huurdeman. The Worldwide History of Telecommunications (New Jersey: John Wiley & Sons, 2003).

[8] A capacitância de um condutor é a relação entre a carga elétrica armazenada neste condutor e o respectivo potencial elétrico adquirido em função da carga armazenada.

[9] tom Standage, The victorian Internet (New York: Berkley Publishing Group, 1999).

[10] Ibid.

[11] Samuel Irenaeus Prime. The Life of Samuel F. B. Morse, Inventor of the Electro-magnetic Recording Telegraph. (New York: Appleton and Company, 1875).

[12] Daniel Headrick, The invisible weapon telecommunications and international politics 1851-1945. (New York: Oxford University Press, 1991).

[13] Os irmãos Brett apresentaram uma proposta para instalação de cabos submarinos ao longo da costa brasileira, em maio de 1853. Entretanto, a obra não foi aprovada pelo governo imperial.

[14] Substância branca leitosa extraída de árvores nativas da Malásia que produz um material similar à borracha.

[15] Henry M. Field, History of the Atlantic telegraph (New York: Charles Scribner & Co, 1866).

[16] Paul Julius Reuter, fundou em Londres a agência Reuter de notícias, em 1851, ainda hoje uma das maiores do mundo.

[17] Segundo Morazé, a revolta dos cipaios foi estrangulada pelo fio elétrico do telégrafo e pelas mobilizações de tropas chegadas pelas vias férreas, pelas estradas e pelos rápidos navios a vapor. Charles Morazé, Os Burgueses à Conquista do Mundo. (Lisboa: Edições Cosmos, 1965).

[18] Maxime de Margerie, “Le réseau anglais de câbles sous-marins”, in The tentacles of progress technology transfer in the age of imperialism, 1850-1914, Daniel Headrick, (New York: Oxford University Press, 1988).

[19] Sobre o telégrafo otomano ver: Yakup Bektas “The Sultan’s Messenger: Cultural Constructions of Ottoman Telegraphy 1847-1880” Technology and Culture 41 (October, 2000): 669-696.

[20] Daniel Headrick, The invisible weapon telecommunications and international politics 1851-1945.

[21] Ibid.

[22] Louis Figuier, Les Merveilles de la Science v. 2 (Paris: Furne, Jouvet et Cie Éditeurs, 1865)

[23] C. A. Hempstead. “The early years of oceanic telegraph: technology, science and politics”. IEE Proceedings 136, no 6, (November 1989): 297-305.

[24] Em 1848, novos movimentos liberais voltaram a agitar a Europa. Esses movimentos eram de natureza liberal, social e nacionalista. Os movimentos se opunham ao absolutismo monárquico e lutavam pela igualdade social. Questões econômicas agravaram a crise. O aumento do preço dos alimentos elevou as despesas dos trabalhadores, o que provocou a redução do consumo de tecidos. As fábricas, que já se encontravam em regime de superprodução, demitiram em massa. Os Estados comprometeram seus orçamentos com a compra de trigo para reduzir a fome do povo. Como conseqüência, houve redução dos investimentos, entre eles, e a construção de estradas de ferro, grande propulsora econômica na época. Depois do Congresso de Viena, os Estados alemães passaram a constituir uma Federação, cujos membros mais importantes eram a Prússia e a Áustria. Para obter maior integração entre os Estados germânicos foi criada uma liga aduaneira (Zollverein) que estimulou o desenvolvimento industrial. Esse desenvolvimento acentuou o nacionalismo germânico, que se expressava no desejo de união política. Em 1848, houve uma grande manifestação popular que obrigou o rei da Prússia, Frederico Guilherme IV (1795-1861), a prometer uma Constituição ao povo. Vários Estados alemães se juntaram aos revoltosos, tentando obter a unificação política da nação. Chegou-se a estabelecer um parlamento que prepararia a unificação. Entretanto, divergências sobre a forma de governo inviabilizaram a unificação. José J. de Arruda, História Moderna e Contemporânea. [São Paulo: Editora Ática, 1982].

[25] Bruce Hunt, “Michael Faraday, Cable Telegraphy and the Rise of Field Theory”, History of Technology, v.13, 1 (1991): 1-19.

[26] Dispositivo inventado por Peter Von Musschenbroek (1692-1761), em 1745, em Leyden, Holanda, capaz de armazenar carga elétrica.

[27] Bruce Hunt, “Michael Faraday, Cable Telegraphy and the Rise of Field Theory”.

[28] Michael Faraday, “On the use of Gutta Percha in Electrical Insulation”, Philosophical Magazine, 32 (1848): 165-167.

[29] Entre os cientistas que se dedicaram à pesquisa iniciada por Faraday sobre a propagação da força magnética e a representação do meio no qual a essa força se propaga estão William Thomson (1824-1907), James Clerk Maxwell (1831-1879), Joseph John Thomson (1856-1940), Bernhard Riemann (1826-1866) Ludwig Lorenz (1829-1891), Hermann von Helmholtz (1821-1894) e Heinrich Rudolf Hertz (1857-1894).

[30] Ver os artigos em: William Thomson. Reprint of papers on Electrostatics and Magnetism. (London: Macmillan & Co, 1872).

[31] Doravante apenas denominados cabos submarinos.

[32] Whitehouse descreveu seus experimentos na seção de Matemática e Física da British Association em 1855, reunida em Glasgow.

[33] Bruce Hunt, “Scientists, “Engineers and Wildman Whitehouse: Measurement and Credibility in Early Cable Telegraphy”, British Journal History of Science, v. 29, (1996): 155-69.

[34] A Guerra da Criméia iniciou-se entre os impérios Otomano e Russo por causa de disputa territorial, e levou a Grã-Bretanha e a França a ficarem ao lado do sultão para evitar uma expansão russa em direção do Mediterrâneo.

[35] Henry M. Field, History of the Atlantic telegraph.

[36] Bruce Hunt, “Scientists, “Engineers and Wildman Whitehouse: Measurement and Credibility in Early Cable Telegraphy”.

[37] Douglas Galton, da Royal Engineers e representante do governo, Wheastone, William Fairbain, futuro presidente da British Association for the Advancement of Science, Geoge Parker Bidder, C.F. Varley, Latimer Clark e Edwin Clark, todos com grande experiência em telegrafia e Georg Savard, secretário da ATC. Henry Field, History of the Atlantic telegraph.

[38] Henry Field, History of the Atlantic telegraph.

[39] Daniel Headrick, The invisible weapon telecommunications and international politics 1851-1945.

[40] K. C. Balehole, A Century of Service a brief History of Cable and Wireless LTD. 1868-1968. (London: Bournehall press, 1969).

[41] Sobre telegrafia e diplomacia, ver: David Paull Nickles, Under the Wire How the Telegraph changed Diplomacy (Cambridge & London: Harvard University Press, 2003)

[42] Sobre geopolítica e comunicações, ver: Peter J. Hugill, Global Communication since 1844 Geopolitics and Technology (Baltimore and London: John Hopkins University Press, 1999).

[43] Daniel Headrick, The Tools of Empire Technology and European Imperialism in the Nineteenth Century (New York: Oxford University press, 1981).


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