Travessias entre modalidades: a transdução de um conto para vídeo de alunos

Maria das Graças Lino Labruine

Resumo


Este trabalho é parte dos estudos de uma pesquisa de doutorado que analisou as práticas de produção de vídeos por alunos da Educação Básica. Com base no conceito de multimodalidade de Kress e Van Leeuwen (2006), partimos do pressuposto de que os vídeos são enunciados digitalizados que projetam seus sentidos através de uma multimodalidade discursiva, ou seja, incorporam diferentes modos de representação e de produção semiótica, como signos alfabéticos, imagem, movimento e, às vezes, som e música. Cada modalidade tem sua materialidade e seus princípios organizacionais únicos, que envolvem elementos em convenções que não têm significados equivalentes. Para se fazer a mudança de uma modalidade para outra, envolve-se num processo contínuo de transformação de significado chamado por Kress (2006) de “transdução”. Na escola onde foi feita a pesquisa, os docentes de Língua Portuguesa pedem que seus alunos criem vídeos a partir de textos ou livros lidos em sala de aula (para desenvolver diferentes linguagens e habilidades em seus alunos), o que permite, então, verificar o processo de transdução na prática. O objetivo deste trabalho é discutir de que modo os alunos “reconfiguraram” e “reformataram” o material semiótico de acordo com as affordances de cada modalidade. Tomamos um vídeo ilustrativo e fizemos entrevistas com a professora e com os alunos-autores para compreender de que modo eles deram sentido ao que produziram. Neste artigo, trazemos as reflexões iniciais feitas sobre a forma como os alunos realizaram a transdução. Uma análise flutuante do texto e do vídeo permite verificar que as modificações geradas na transdução incluem elementos da cotidianidade dos alunos, seu conhecimento prévio sobre o assunto e as escolhas feitas sobre os aspectos do conto de modo a projetar suas identidades de adolescentes. No caso a ser exibido, os alunos precisaram pesquisar e aprofundar a leitura do conto para fazer as adaptações necessárias de modo a manter sua essência e manifestar o interesse comunicativo dos alunos. Desse modo, os vídeos escolares, mesmo “reproduzindo os “retalhos da opacidade e mesmice” (FRESQUET, 2013, p.100) que nos trazem a cultura do consumo, abrem ricas possibilidades de expressão pessoal dos alunos.

 


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ISSN: 2595-4792